Review: “No Room At The Inn” S02E05 – The Leftovers

“Ninguém ri de deus quando há fome, um incêndio ou uma inundação”… e é muito difícil rir de The Leftovers.

Spoilers depressivos a seguir.

É curioso como uma série tão profundamente triste e terrível como The Leftovers prende. A qualidade do roteiro, da direção e das atuações ajuda muito, mas a trama e a premissa já me puxam, mesmo que o luto seja algo que eu experimentei só uma vez, e ali cada personagem lida com um tipo diferente de luto, além do mundo, virado de ponta cabeça por um grande luto.

E tudo virou de cabeça para baixo mesmo, como ficou claro em “No Room At The Inn”. Matt é claramente o personagem mais azarado da série (vide o episódio focado nele na primeira temporada) e tudo que poderia dar errado aqui, deu. Seguimos sem saber se Mary realmente se reanimou e a revelação da gravidez dela torna as coisas muito piores para o pastor, afinal, transar com alguém que está em coma (mesmo que seja sua esposa) é estupro. É um conceito simples, mas tão distante da realidade da maior parte das pessoas que é difícil de entender isso.

Matt, no entanto, acredita que ela de fato voltou naquela noite e tenta recriar todos os dias a mesma situação para que aconteça novamente, o que obviamente não acontece. O personagem é teimoso e sua fé é tão forte que às vezes parece que ele está sendo punido justamente por acreditar. E a série tem essa coisa de criar pequenas coincidências terríveis e quase sempre um pouco previsíveis, o que é justamente a graça da coisa toda. É tudo tão amarrado que não parece natural, e é isso que torna a trama tão interessante, essa sensação de irrealidade, mas aplicada a um mundo dolorosamente (muito doloroso mesmo) real.

Boa parte do foco aqui foi em apresentar melhor o mundo do acampamento do lado de fora do parque Miracle em Jarden, com todo tipo de gente meio doida com quem Matt teve de interagir para tentar voltar à cidade depois do roubo da sua pulseira. De uma mulher e seu filho que queria ser punido por alguma coisa (eu acho) até um grupo bizarro que prendeu um homem nu no topo de um trailer, passando pelo bizarro Almer, o acampamento é terreno fértil para as histórias mais bizarras, frutos ou não desse mundo louco criado pela Partida.

A atuação do Christopher Eccleston dispensa comentários. Muito difícil não comparar o Matt ao Locke de Lost, e a força da atuação e da fé dos personagens é a mesma. A expressão dele ao tomar a decisão no fim do episódio foi, em iguais partes, assustadora e bonita, ainda mais para quem começou o episódio desesperado. Ele tem certeza de que Mary vai voltar a se reanimar e aí ele estará justificado aos olhos do papai Murphy, que está cada vez mais vilanesco, e poderá voltar. A escolha de tomar o lugar do homem nu é curiosa, e acredito que parte dele se sente culpada pela gravidez de Mary – talvez, no fundo, ele tenha um pouco de dúvida. Mas não é um homem de dúvida que se colocou na posição em que vemos ele ao final, é um homem de fé.

Aleatoriedades:

A trilha sonora da série está incrível nessa temporada e a cada episódio é um tiro. (basta ouvir o vídeo com Laughing With da Regina Spektor, as cenas finais ao som da música foram maravilhosas)

Essa ambiguidade das coisas me instiga. Patti virou fantasma mesmo? Mary voltou? Não saber se algo é real ou não é uma delícia narrativa.

Por enquanto, The Leftovers está dando uma lição de como fazer uma temporada melhor que a já excelente anterior e ainda expandir, dividindo muito bem o foco entre os muitos (e distantes) personagens.

Ponto alto: a estranheza dos fatos parece menos estranha através do olhar da fé de Matt, capaz de tudo pela esposa. Atuação incrível do Christopher Eccleston.

Ponto fraco: não vejo nenhum, apesar de entender que para muita gente a desesperança da série deve ser demais para digerir. Para quem já vê o mundo de maneira desesperançosa acaba soando como um retrato da vida real, pintado de bizarrices.

Nota: “No Room At The Inn” – 9.5

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s